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UMA NOVA METOLOGIA DE ESTUDO DO MEDICAMENTO, BASEADA NA CONCEPÇÃO CONSTITUCIONAL DE JAMES TYLER KENT.

Medicamentos

UMA NOVA METOLOGIA DE ESTUDO DO MEDICAMENTO, 

BASEADA NA CONCEPÇÃO CONSTITUCIONAL DE JAMES TYLER KENT.

Claudio C. Araujo MD, FF Hom (Lon.)

XXI Congresso Brasileiro de Homeopatia

Belo Horizonte 1992

INTRODUÇÃO

Poderia se afirmar que, dentro do mundo homeopático, vivemos a década de '80 tentando transformar a herança experimental e a patológico-organicista dos autores do século passado numa informação ordenada e dotada de conteúdo psíquico. Para isso autores oriundos de fora do universo homeopático, como C. Jung, Pietro Ubaldi, E. Swedenborg, S. Tomas de Aquino entre outros foram trazidos para que, com o auxílio de seus ordenamentos científicos ou empíricos, nos auxiliassem a compreender a dinâmica comportamental dos nossos medicamentos e por conseguinte, dos nossos doentes. Alguns autores, como Paschero, Masi Elisalde e mesmo anteriormente J.T.Kent utilizaram de propostas de compreensão da origem da doença fora dos autores clássicos homeopáticos, tentando estabelecer um elo entre o que podemos perceber através dos nossos sentidos (os sinais e sintomas) e o que podemos compreender ou até mesmo supor como origem desses mesmos sinais e sintomas.

O que aqui nos interessa especialmente são as fontes de pesquisa que mais influenciaram Kent na sua concepção metodológica de estudo da Materia Medica. É importante ressaltar que Kent vivia numa época anterior a psicanálise, época essa que não era costume para os pacientes o exercício da auto-observação ou mesmo da investigação e do conhecimento comportamental de si mesmo, hábito esse tão incorporado as classes média e alta dos centros urbanos modernos atuais.

Kent trabalhou por bastante tempo em Chicago com pacientes de varias classes sociais e embora Swedenborg, como filósofo, tenha lhe transmitido muito mais do que somente a questão do comportamento humano visto sob a luz do rompimento com as leis divinas, Kent utilizou os ensinamentos Swedenborgianos como anatomia da alma humana (para poder compreender a origem pré-material da doença) e também poder estabelecer uma correlação entre o que ele classifica como o mundo das causas com o mundo das consequências. (LR, pág. 606, Correspondence of Organs and Direction of Cure).

Segundo nos foi dito diretamente pelo Dr. Pierre Schmidt, quando estivemos em Genéve em 1978, Kent se baseava principalmente na Materia Medica de Hering para suas aulas de MM. Foi essa a MM que Kent se refere como "o texto" ao longo de suas aulas e o Dr. P. Schmidt era possuidor dos próprios livros que Kent tinha utilizado, segundo ele com várias correões do próprio Kent. Infelizmente essas mesmas correções jamais vieram à público, mas sabemos que todas foram feitas à partir da experiência clinica de Kent. A MM clinica de Hering (Hering Guiding Symptoms)  é uma verificação prática dos sintomas patogenéticos presentes nas MM de Hahnemann e Allen e muitos outros., experimentações essas que sabemos estarem repletas de sintomas questionáveis em função da sua origem, do experimentador, das condições em que foram feitas as experimentações, etc. Não seria nada mais lógico do que o resultado da prática para confirmar ou mesmo corrigir os sintomas patogenéticos.

Constituição x Simillimum

Antes de prosseguirmos com a metodologia do estudo do medicamento, seria importante assinalar o que Kent estava buscando assimilar e compreender.

Embora ele afirme no prefácio da primeira edição da sua MM que "No two medicaments were studied alike" (mesmo dois medicamentos, não foram estudados da mesma forma), ele afirma em Calc. carb.:  "A constituição (de Calcarea carb.) é o que queremos saber".

No artigo "Classification of Constitutions Useless in Prescribing" KMW, pag. 651, Kent critica a classificação dos seres humanos em constituições, afirmando que "cada individuo é uma constituição e dois doentes não podem ser classificados como pertencentes à mesma classe".

Se cada individuo é uma constituição, se a constituição é o conjunto de possibilidades patológicas de um determinado medicamento/paciente, se o remédio constitucional é aquele determinado agente dinâmico capaz de modificar o curso patológico de uma certa constituição, poderíamos então considerar a expressão "remédio constitucional" semelhante a "medicamento simillimum"?

Nos parece que sim. Vem então a pergunta: Porque Kent teria modificado a terminologia homeopática estabelecida por Hahnemann?

A única explicação que nos ocorre e ainda assim por uma dedução pessoal, é a seguinte: Kent estava, pela primeira vez na história do estudo dos medicamentos, propondo uma metodologia interpretativa dos sintomas oriundos das patogenesias e a esse método, ele chamou "estudo das constituições" (individuais). Inúmeras vezes, ao longo de sua MM, Kent chama a atenção para a "constituição" de um determinado medicamento, como sendo o ponto de partida para a compreensão deste.

ESTUDO DA CONSTITUICAO

Uma determinada constituição é somente a forma patológica que um certo individuo pode assumir.

Sabemos que cada ser humano é dotado de características que lhe são completamente individuais: seu temperamento, suas características fenotípicas, estatura etc., e sua capacidade de adoecer. Não podemos, como indivíduos, produzir qualquer manifestação patológica fora de nossas possibilidades, mas somente aquelas as quais nossa tendência orgânica dá a permissão de existir. Com exceção das doenças causadas pelas drogas, pela iatrogenia, etc.

Não aparece nas experimentações o nosso fenótipo, ou se o remédio mudou a cor dos nossos cabelos, mas aparecem as nossas tendências patológicas, nossos sintomas. No artigo "Temperaments" KMW, pag. 649-650, onde Kent critica a inclusão do estudo dos temperamentos na seleção do medicamento, ele diz: "qual o benefício que irá se seguir ao fato de se conhecer o estudo da Biologia para se descobrir as diferenças nas constituições naturais dos seres humanos, quando é necessário ser a condição doente (mórbida) das constituições dos seres humanos que deve ser completa e extensivamente revolvida, (compreendida), para guiar o médico na cura dos doentes?".

Nos fica bem claro o que Kent queria dizer com o termo "constituição": o estudo das manifestações mórbidas de uma certa constituição individual e não o que podemos confundir com o que seria o fenótipo de um certo individuo. Cabe acrescentar que Kent também denominava de “constituição” à forma de instalação dos sintomas de uma determinada entidade clínica. Se essa forma era lenta ou rápida, em que direção se dava, etc).

Inovações trazidas por Kent

A partir das matérias medicas de Allen e Hanneman e principalmente na de Hering, Kent buscava a evolução fisiopatológica do organismo como um todo – o que ele incluía na sua oncepçãao de “constituição”. Ou seja, o estudo da “constituição compreenderia todas as etapas patológicas que um determinado organismo/medicamento estaria atravessando, do estado latente de desenvolvimento até o estado onde o quadro seria incurável.

Etapas do estudo:

Essas etapas não nos foram deixadas por Kent mas sim o pudemos deduzir a partir dos estudos e da leitura dos seus artigos publicados na compilação de seus artigos “Lesser Writings”, no seu livro de “Lectures on Homeopathic Phylosophy”. Também nas suas Lectures of Materia Medica e no repertório Pareceu-nos que seguindo esses passos, poderíamos nos aproximar bastante da compreensão que Kent buscava ter de um determinado medicamente.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                            

Primeira Etapa: escolher um sistema fisiológico como ponto de partida à compreensão da constituição de um determinado medicamento.

1º) Escolher um sistema fisiológico que seja bastante representativo considerando-se os efeitos patogenéticos sobre esse sistema.

A idéia de se escolher um determinado sistema fisiológico mais afetado pela patogenesia vem do pressuposto que- naquela forma mais rica de expressão sintomatológica poderiam estar delineados os aspectos mais característicos daquele medicamento.

2º) Como esse determinado sistema fisiológico adoece?

  1. As causalidades, ou seja, fatores desencadeantes internos ou externos que levam a um edterminado sistema fisiológico a se manifestar através de sinais e sintomas – pelas fases da vida, por traumas emocionais, ou interferências advindas de outras patologias em atividade no organismo.
  2. Fisio-patologia individual: cada estado patológico tem seus estados subsequentes. O que é constante nesse determinado sistema que deve estar sempre presente em qualquer patologia e que pode sir a ser diferente das modalidades particulares e/ou gerais. 

      A forma individualizada de um determinado sistema adoecer.

C) A análise desses estágios dentro da temporalidade (primeiro no próprio sistema e mais tarde, relacionados com o todo (por ex.  a alternância das manifestações entre vários sistemas.  

D) O POTENCIAL PATOLOGICO DE UM CERTO MEDICAMENTO, RECONHECIDO EM CADA SISTEMA FISIOLOGICO.

ATRAVÉS DA ANÁLISE DOS SINTOMAS CLÍNICOS DE HERING, PROCURA-SE FORMAR O MAIOR NÚMERO POSSÍVEL DE PATOLOGIAS CONHECIDAS, UTILIZANDO-SE PARA ISSO DA ORDENACAO E REORDENACAO DAQUELES SINTOMAS.

E) OS SINTOMAS CONCOMITANTES, SINTOMAS QUE APARENTEMENTE SURGEM EM OUTROS SISTEMAS FISIOLÓGICOS SEM UMA APARENTE CORRELACAO DE CAUSA E EFEITO.

3. A NATUREZA DOS SINTOMAS

A) PERIODICIDADE

B) EXTENSÃO

C) INTENSIDADE DE INSTALACAO

4. AS MODALIDADES DESSE SISTEMA EM PARTICULAR.

5. SINTOMAS ESTRANHOS, RAROS E PECULIARES.

Segunda Etapa:

Após todos os sistemas serem estudados em consonância com a primeira etapa, Kent conjugava esses sistemas, avaliando a tendência geral do medicamento nis seguintes aspectos: 

1. A TENDÊNCIA GERAL DA CONSTITUICAO (EX. TENDENCIAS CONGESTIVAS, HEMORRAGICAS, SENTIDO DO EMAGRECIMENTO OU DA OBESIDADE, EXCRESCÊNCIAS, CARIES OSSEAS, FLACIDEZ DOS TECIDOS,ETC.).

2. ASPECTOS MIASMÁTICOS.

ATRAVES DA COMPARACAO DOS SINTOMAS DO MEDICAMENTO COM OS SINTOMAS DOS MIASMAS, KENT ESTABELECIA UMA SEMELHANCA DAQUELE MED. COM OS MIASMAS DE HAHNEMANN, CHEGANDO ATE A CONCLUSAO QUE CERTOS MED. ERAM APSORICOS E QUE NECESSITARIAM DE OUTROS MED. DITOS MAIS PROFUNDOS (MM. IGNATIA, NAT-SUL. E SYCOSIS, ETC.) COMO COMPLEMENTARES A SUA ACAO.

KENT TAMBEM BUSCA NO SEU ESTUDO SINTOMAS QUE ASSINALEM A CAPACIDADE DE UM CERTO REMEDIO DE PRODUZIR OS SINTOMAS AGUDOS DOS MIASMAS VENEREOS E DE QUANDO ESSES SINTOMAS TEM UM TERRENO MIASMATICO OU NÃO.

3. Modalidades Gerais.

Seriam as modalidades particulares que se repetem ao londo dos sintomas dos sistemas.

4. Sintomas característicos: aqueles que são representativos do medicamento, por expressarem uma parte da tendência constitucional .

(ver artigo: Sintomas Característicos. Por que Kent escolheu aqueles, dentre os outros?)

Terceira etapa. Sintomas mentais

Kent costumava tratar os sintomas mentais da mesma forma como nos outros sistemas, ou seja, avaliando um certo comportamento geral daqueles sintomas. Isso e bastante constante em grande parte dos remédios estudados, mas podemos ver, já em alguns outros, como Aurum por ex., que Kent estava arriscando uma compreensão mais profunda, mais particularizada, e para isso se baseava na concepção de E. Swedenborg. Não compete a esse trabalho entrar em detalhes sobre essa concepção espiritual Swedenborgiana, mas podemos assinalar o que Kent trouxe de completo do trabalho do filosofo sueco:

A) Vontade (desejos e Aversões)

B) Entendimento (Nossa capacidade de avaliar uma esperiência

C) Memória (nossa capacidade de reter uma experiência.

Através desses três itens, Kent não só avaliava os sintomas mentais, mas estabelecia também uma correlação dos mentais com os orgânicos. Isso não nos foi deixado descrito, nem ao menos no esboço, mas sabemos que Kent costumava fazer essa comparação, ate mesmo para avaliar o local onde poderiam se dar as agravações.

Conclusão:

O presente trabalho visa acrescentar ao nosso conhecimento sobre as técnicas de estudo dos med. homeopáticos, mais uma possibilidade de investigação dos sintomas que nos foram deixados através das grandes Materias Medicas. Não se propõe a ser completo em si mesmo, ou a substituir qualquer outro método proposto, mas somente se destina a preencher a lacuna deixada por nos, médicos homeopatas, que nos últimos anos deixamos de lado uma fonte tão rica em sintomas como são os sintomas ditos "particulares ou orgânicos". De forma alguma e o trabalho uma proposta de retorno ao organicismo, mas somente uma ferramenta técnica para que possamos compreender a doença na sua expressão completa, manifesta em todas as partes do organismo.          

Rio de Janeiro, maio de 1992.              

BIBLIOGRAFIA

1. ARAUJO E PAGLIARO, SWEDENBORG'S INFLUENCE ON KENT'S LECTURES ON HOMOEOPATHIC PHILOSOPHY, Primeiro Congresso da Homeopathia Europea, LYON, 1986.

2. ARAUJO, Claudio, A VISAO SEMIOLOGICA DE JAMES TYLER KENT E SUA APLICACAO NA CLINICA HOMEOPATICA, UNIVERSIDADE DO RIO DE JANEIRO, TESE PARA LIVRE DOCENCIA EM CLINICA MEDICA HOMEOPATICA, 1991.

3. KENT, J.T., MINOR WRITINGS, Haug Verlag, 1990.

4. KENT, J.T. REPERTORY of the Homoeopathic Materia Medica, B.Jain Publishers, Sixth Edition, New Delhi,1988.

5. KENT, J.T. LECTURES ON HOMOEOPATHIC PHILOSOPHY, B.Jain Publishers, New Delhi, 1974.

6. KENT, J.T. LECTURES ON HOMOEOPATHIC MATERIA MEDICA,B.Jain Publishers, New Delhi, 1987.